
Por Vanessa Gonçalves – Nutricionista (6096N), Mestranda em Nutrição Humana e Metabolismo na NOVA Medical School, Comprehensive Health Research Centre (CHRC); Diana Teixeira – Nutricionista especialista em Nutrição Clínica (1230N); Professora Auxiliar da NOVA Medical School|Faculdade de Ciências Médicas, UNL; Investigadora no Comprehensive Health Research Centre (CHRC); Diogo Pestana – Professor Auxiliar da NOVA Medical School|Faculdade de Ciências Médicas, UNL; Investigador no Comprehensive Health Research Centre (CHRC) e no CINTESIS
A exposição a contaminantes alimentares tem sido uma preocupação crescente em toda a Europa, sobretudo devido aos seus impactos em fases críticas da vida, como a preconceção, a conceção e a infância. Entre esses contaminantes, os metais pesados destacam-se pela sua origem em fontes antropogénicas e pelos efeitos adversos na saúde humana. O mercúrio, em particular, é amplamente estudado, uma vez que a principal via de exposição alimentar ocorre através do consumo de peixe — um alimento central na Dieta Mediterrânea, recomendada e incentivada em toda a Europa. Essa realidade levanta preocupações sobre a segurança alimentar, especialmente devido à reconhecida neurotoxicidade do mercúrio. As crianças representam um grupo especialmente vulnerável a essa exposição, uma vez que o seu sistema nervoso ainda está em desenvolvimento e, portanto, mais suscetível aos efeitos neurotóxicos do mercúrio.
O mercúrio está presente na atmosfera na sua forma inorgânica, proveniente sobretudo de operações de mineração e atividades industriais. Uma vez depositado no solo e nos corpos de água, pode sofrer metilação, resultando na formação de metilmercúrio (MeHg), a sua forma orgânica mais tóxica, que se acumula nos ecossistemas aquáticos e terrestres. Ao longo do tempo, a exposição ambiental ao mercúrio tem sido progressivamente controlada, com a eliminação do seu uso em pesticidas, catalisadores, tintas e até em aplicações médicas, como nas obturações dentárias de amálgama, cujo uso foi proibido para crianças com menos de 15 anos pela Comissão Europeia em 2017. No entanto, a sua presença ainda é identificada em humanos. Além disso, depósitos resultantes de emissões passadas permanecem no solo, sedimentos e gelo, podendo tornar-se biologicamente disponíveis ao longo do tempo.
As maiores concentrações desse metal são encontradas nos tecidos musculares de peixes predadores, como atum vermelho, tubarão e espadarte, sendo esta a principal fonte de exposição humana através da ingestão alimentar. Peixes menores, como os magros e atum enlatado, também podem representar uma fonte de exposição, especialmente devido ao seu consumo frequente pela população. De modo geral, quanto maior o consumo de peixes marinhos, maior é a exposição ao MeHg. No entanto, o projeto europeu DEMOCOPHES identificou que outros produtos de origem marinha, como frutos do mar e mariscos, também contribuem significativamente para essa exposição.
A absorção do MeHg pelo trato gastrointestinal ocorre de forma altamente eficiente, atingindo aproximadamente 95% da dose ingerida. Uma vez na corrente sanguínea, pode atingir o sistema nervoso, seu principal órgão-alvo devido aos efeitos neurotóxicos do MeHg. A preocupação com essa exposição é particularmente relevante no período pré-natal, quando ocorre a formação da maioria dos neurónios, e na infância, fase em que se intensifica o crescimento das células gliais e a mielinização dos axónios – fases essenciais para o desenvolvimento neurocognitivo infantil. A Autoridade Europeia para Segurança Alimentar (EFSA) estabeleceu um limite de ingestão semanal tolerável de 1,3 μg de MeHg por kg de peso corporal alertando que, em crianças pequenas, a exposição alimentar pode frequentemente exceder esse valor, de acordo com algumas pesquisas.
O peixe é um alimento crucial para o desenvolvimento infantil, por ser uma fonte importante de nutrientes como os ácidos gordos ómega-3. No entanto, o aumento do consumo de peixe neste grupo também eleva o risco de exposição ao MeHg, o que pode ter um efeito inverso, prejudicando o desenvolvimento cognitivo nesta fase da vida. Um estudo realizado na Espanha por Freire e colaboradores (2010), um dos maiores consumidores de peixes do mundo, encontrou uma associação entre concentrações de Hg ≥ 1 μg/g no cabelo de crianças pré-escolares e déficits nas áreas cognitivas, de memória e habilidades verbais gerais. Além disso, foi observada uma pontuação cognitiva geral mais baixa em crianças que consumiam três ou mais porções de peixe por semana.
Uma revisão sistemática recente de Ding e colaboradores (2023) identificou concentrações significativamente mais altas de mercúrio em amostras de cabelo, sangue, urina, unhas e dentes de crianças com Perturbação do Espectro do Autismo, em comparação com um grupo de controlo saudável. Contudo, os efeitos da exposição alimentar ao MeHg na cognição apresentam resultados inconsistentes, possivelmente devido à ingestão concomitante de outros nutrientes benéficos para o sistema nervoso central, como ácidos gordos ómega-3, vitamina D e iodo, que estão presentes nos frutos do mar juntamente com o mercúrio. Um ensaio clínico realizado por Kvestad (2018) na Noruega com crianças em idade pré-escolar mostrou que o consumo de peixe gordo (arenque/cavala) três vezes por semana aumentou os níveis de mercúrio no cabelo, mas os valores ficaram abaixo dos limites da EFSA, OMS e US-EPA, e não foram observados impactos na função cognitiva. Por outro lado, o consumo de sushi, especialmente de atum (sashimi), é outra fonte relevante de exposição ao MeHg. Um estudo na Espanha por Gonzalez (2021) mostrou que adolescentes, cujo consumo médio de sushi excedeu os níveis estabelecidos pela EFSA, são o grupo de maior risco.
Considerando o risco-benefício do consumo de peixe, é fundamental que a comunicação sobre a exposição ao mercúrio seja clara e equilibrada. Os peixes são componentes essenciais da Dieta Mediterrânea e oferecem benefícios que, em países como Portugal, podem superar os riscos associados ao mercúrio. Assim, focar em estratégias de aconselhamento para grupos vulneráveis, como grávidas e crianças, pode ser a abordagem mais sensata. Neste contexto, as recomendações da ASAE para o consumo de pescado em Portugal, que abordam os riscos associados ao mercúrio em espécies de peixe com elevado teor (atum fresco, cação, espadarte, maruca, pota roxa, peixe espasa e tintureira), e o guia para grávidas publicado pelo PNPAS, que inclui orientações sobre a alimentação durante a gravidez e a lactação, são recursos importantes para orientar escolhas alimentares seguras. Além disso, a comunicação deve focar em alternativas de substituição e escolhas alimentares que possam reduzir a exposição, em vez de gerar pânico na população, o que poderia levar a uma redução ainda mais drástica do consumo de peixes e frutos do mar, prejudicando outras áreas da saúde. Mais do que nunca, a população procura saber mais sobre a sua saúde e nós, como profissionais de saúde, temos a missão de ajudá-los a encontrar o equilíbrio para uma alimentação saudável e segura.